O conto do ouro enterrado: histórias de nossos antigos Turvenses. Parte 1

A minha infância e a de todos que viveram antes da era da TV, foi privilegiada e marcada por fatos peculiares: geralmente a noite em volta de uma mesa...

Geral
Por: Colunista Geral
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A minha infância e a de todos que viveram antes da era da TV, foi privilegiada e marcada por fatos peculiares: geralmente a noite em volta de uma mesa ou de um fogão a lenha queimando um cerne de ipê, tomando café com mistura, ficávamos absortos ouvindo “casos”, ou seja contos ou relatos fantásticos, sobre bruxas, mula-sem-cabeca, lobisomem, boitatá, almas penadas entre outros. Todavia, havia um conto onde a realidade e a ficção se misturavam, pois as narrativas envolviam muitas vezes a participação daquele que narrava. Estamos falando do conto do ouro enterrado. Como falavam nossos pais e avós, o ouro enterrado era ouro encantado, e só podia arrancá-lo aquele que sonhasse e respeitasse todas as regras e rituais solicitado pelo espírito doador do ouro. Enterrado por antepassados distantes, em panelas tachos ou baús de ferro, madeira ou couro, o sonho significava um privilégio e uma oportunidade tanto por parte do doador, quanto do recebedor. Para o espírito do doador implicava a libertação da sua alma e para aquele ia arrancar o tesouro, uma libertação financeira. Com efeito, havia dois tipos de ouro enterrado: um abençoado e outro amaldiçoado. No abençoado havia poucas exigências, como por exemplo mudar de casa, ajudar os parentes e fazer bom uso do presente. No caso do ouro amaldiçoado as exigências eram mais drásticas, incluindo por exemplo na morte de algum filho e no caso de não tê-los, algum membro da família deveria ser entregue; em casos mais leves também era solicitado um ritual com o sacrifício de algum animal. Como contavam nossos pais e avós, difícilmente alguém arrancava um ouro que contivesse a contrapartida de entregar à morte alguém da família, mas sempre tinha excessão, quando a ambição desmedida pelas riquezas falava mais alto. Vamos começar as narrativas a partir de um sonho de um ouro amaldiçoado, que desde criança ouvia meus pais contarem. A pessoa em questão vamos chamá-la de Dona Cristina que morava próxima a um rio no Taquaruçu, hoje município de Ermo. Esta senhora faleceu numa idade próxima a 100 anos e na ocasião da minha entrevista ela já contava com mais de 90 anos. Muito lúcida ainda lembrava os detalhes de um sonho que lhe acompanhava desde quando era moça solteira até a uma idade de 50 anos. Dona Cristina relatou que nas “horas mortas”, após a meia noite, um moço muito bem apessoado com cabelos pretos bem penteados com brilhantina lhe aparecia como se fosse num transe, onde ela não distinguia se estava dormindo ou acordada. O espírito em questão era um ofícial do exército gaúcho que nos idos da revolução Farroupilha tinha confiscado o ouro de 100 soldados, totalizando 100 quilos que foi colocado num tacho de ferro e enterrado a margem do Rio Araranguá, não muito longe de onde ela morava. Depois deste confisco ou roubo assim que ele enterrou o ouro para depois vim buscá-lo em outra oportunidade, teve a infelicidade de ser picado por uma cobra venenosa e morreu ali mesmo. Por ligações com seus antepassados Dona Cristina foi escolhida por ele para libertar sua alma que por castigo havia ficado presa junto ao tacho contendo 100 quilos de ouro. Para arrancar esta fortuna tinha regras e um preço. Ela podia ser acompanhada por apenas um membro da família, e a meia noite comparecer no local com uma vela acesa. Primeiramente ia lhe aparecer o espírito de um homem negro, provavelmente escravo que fora morto e enterrado junto com o tacho. Era preciso dar um beijo no rosto e a primeira parte estava cumprida. A seguir, uma grande cobra iria surgir do rio e passar no meio deles. Nao era pra temer, e se permanecessem firmes, após a passagem da cobra, o tacho como por encanto se desenterraria, e então estava cumprida a segunda parte. A terceira parte do ritual, após o ouro ser levado para casa, implicava na morte de um de seus filhos. Dívida de sangue que seria paga com sangue!! Dona Cristina era de uma família humilde com muitos filhos, passou por muitas dificuldades, mas nunca aceitou a proposta do espírito do sonho de ficar rica e vir a perder um filho. Foi abençoada com uma bela longevidade vindo a falecer próximo ao ano 2000 com aproximadamente 100 anos! De acordo com seu relato este ouro ainda deve permanecer enterrado nas margens daquele rio.

Fontes Orais( Pedro Idalino(pai), Luzia Rodrigues Idalino (mãe), Dona Cristina)

José Pedro Idalino

Eu sou o professor Jose Pedro Idalino, e sou natural de Turvo, filho da capital Turvo Baixo. De 1979 a 1985 fui seminarista da Ordem dos servos de Maria. Me formei na PUC do Paraná em 1987 com licenciatura em Filosofia e bacharelado em História e psicologia. Iniciei minha carreira de professor, começando no Pedro Simon em Ermo depois Jorge Shultz e colégio estadual de Turvo atual EEB Joao Colodel, no qual estou a 29 anos e hoje atuo na direção do Colégio pela segunda vez. Trabalhei como professor também em escolas particulares como Objetivo, Energia e Universidades como Unisul, Unibave e Unesc. Na Unesc fiz pós graduação em História e Mestrado em Educação. Atuei como professor por 15 anos em cursos como História, Matemática, letras, arquitetura, enfermagem, Artes visuais, Psicologia, Engenharia de materiais, Pedagogia, Administração comercio Exterior e Direito.